Debate promovido pelo Projeto GEF Áreas Privadas via MMA, destacou o papel da conservação voluntária, os desafios da governança em territórios privados e caminhos para transformar conservação em um ativo estratégico
Cada vez mais, a conservação da biodiversidade no Brasil passa pela articulação entre diferentes atores e pelo fortalecimento de estratégias que integram áreas públicas e privadas.
Esse foi o eixo central da mesa “RPPNs Como Corredores de Vida”, realizada nesta sexta-feira (27), no Espaço Brasil da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15/CMS), realizada em Campo Grande (MS). Estiveram presentes representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Funatura, do Instituto Terrabrasilis, da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e do Instituto Arara Azul, reunindo diferentes perspectivas sobre a conservação em áreas privadas.
Promovido pelo Projeto GEF Áreas Privadas via Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e coexecutado pela Funatura no Cerrado,. o debate reuniu especialistas e representantes do setor público e da sociedade civil para discutir o papel das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) na proteção de espécies migratórias e na conexão de paisagens – um dos principais desafios da conservação contemporânea.
Ao longo da mesa, ficou evidente que, em biomas como o Pantanal e o Cerrado, onde a maior parte do território está sob domínio privado, a conservação voluntária não é apenas complementar: ela é estruturante.
Conservação como exercício de cidadania e estratégia de sistema
O diretor de Áreas Protegidas do MMA, Pedro Menezes, destacou que as RPPNs representam uma dimensão singular no Sistema Nacional de Unidades de Conservação.
“As RPPNs são, talvez, a maior expressão da conservação como exercício da cidadania. Não é o governo que define a área protegida, é uma decisão individual de quem está no território, abrindo mão de outras possibilidades econômicas para assegurar a conservação.”
Segundo Menezes, esse esforço voluntário ainda carece de reconhecimento à altura de sua relevância, mas representa um ativo estratégico para o país. Ele ressaltou que as RPPNs já são, em número, a categoria mais representativa entre as unidades de conservação e seguem em expansão.

O diretor também reforçou a necessidade de avançar na gestão integrada dessas áreas:
“A gente precisa deixar de pensar nas RPPNs como unidades isoladas e passar a enxergá-las como parte de um sistema. Hoje, ogrande papel delas é a conectividade.”
Nesse contexto, Menezes destacou a importância de instrumentos como os corredores ecológicos e mosaicos, além do alinhamento entre diferentes categorias de uso da terra, como reservas legais e áreas de preservação permanente.
O papel da sociedade civil e a experiência da Funatura
Durante sua fala, o diretor também reconheceu a atuação da Funatura como referência na construção de soluções territoriais:
“A Funatura tem feito um trabalho com muita qualidade na região de Alto Paraíso de Goiás, pensando gestão territorial e conectividade. A pergunta agora é: como levar isso para o Brasil inteiro?”
A experiência mencionada envolve iniciativas voltadas à integração de áreas protegidas e à construção de corredores ecológicos entre unidades de conservação, conectando territórios e ampliando a efetividade da conservação.
Conservação em territórios privados: desafios e oportunidades
O superintendente executivo da Funatura, Pedro Bruzzi, trouxe para o debate a dimensão prática da conservação em áreas privadas, destacando que o fortalecimento das RPPNs passa necessariamente pela construção de redes e relações de confiança.
“A conservação em áreas privadas é, acima de tudo, um trabalho de relacionamento. É o proprietário que está ali no território, que atua como guardião da área. E é a partir dessa rede que a gente consegue avançar.”

Bruzzi chamou atenção para a complexidade de promover conservação em contextos onde o uso econômico da terra é predominante, como no Cerrado e no Pantanal, e apontou a necessidade de consolidar mecanismos que tornam a conservação viável também do ponto de vista econômico.
“A gente ainda enfrenta a ideia de que conservar não é uma atividade rentável. Precisamos mostrar que a natureza pode, sim, ser um ativo. Créditos de carbono, créditos de biodiversidade e pagamento por serviços ambientais são caminhos fundamentais para isso.”
Conectividade como eixo estruturante da conservação
Um dos consensos da mesa foi a necessidade de avançar de uma lógica de conservação fragmentada para uma abordagem territorial integrada.
A conectividade ecológica, tema central da COP15, foi apontada como elemento-chave para garantir fluxo de espécies, manutenção de processos ecológicos e resiliência frente às mudanças climáticas.
Nesse cenário, as RPPNs assumem um papel estratégico ao funcionar como elos entre áreas protegidas maiores, especialmente em regiões com forte presença de propriedades privadas.

Projeto GEF Áreas Privadas: fortalecendo soluções para o território
A realização da mesa no âmbito da COP15 reforça o papel do Projeto GEF Áreas Privadas como uma das principais iniciativas voltadas ao fortalecimento da conservação em terras privadas no Brasil.
O projeto atua na promoção de novas políticas públicas que integram o valor de conservação de áreas privadas em ferramentas de gestão, além de ampliar a criação, a gestão e a integração de RPPNs como ferramentas essenciais para metas nacionais e internacionais de biodiversidade.
Ao reunir diferentes perspectivas e experiências, o debate evidenciou que o futuro da conservação passa pela cooperação entre governo, sociedade civil e proprietários rurais, e pela construção de soluções que reconheçam o valor ambiental, social e econômico da biodiversidade.