Dia Mundial da Água: roda de conversa no Eixão destaca a importância do Cerrado para a segurança hídrica

Por Lara Réquia

22 de março de 2026

Roda de conversa no Eixão do Lazer, em Brasília (DF), reúne especialistas e público no Dia Mundial da Água para debater a importância do Cerrado para a segurança hídrica.

Neste domingo (22), em alusão ao Dia Mundial da Água, a Fundação Pró-Natureza (Funatura) participou de uma ação especial no Eixão do Lazer, em Brasília, como parte da campanha Cerrado, Coração das Águas. A iniciativa reuniu especialistas e público em uma roda de conversa aberta, aproximando o debate sobre segurança hídrica da população urbana.

A atividade integrou as ações da campanha que busca evidenciar o papel estratégico do Cerrado na produção e manutenção das águas no Brasil. Mais informações sobre a iniciativa podem ser acessadas em: https://cerrado.org.br/

Cerrado e água: uma relação essencial

Durante a roda de conversa, a especialista Bianca Bendito, consultora em pesquisa e incidência política da Funatura, destacou a relação direta entre a conservação do Cerrado e a disponibilidade de água, uma conexão muitas vezes invisível para quem vive nas cidades.

“A gente acredita que tem água porque paga por ela, mas, na verdade, a gente tem água porque o Cerrado está preservado. O pagamento é apenas pela distribuição até as nossas casas, explicou.

Bianca também apresentou dados de estudos conduzidos pela Funatura, que indicam uma redução significativa da vazão em alguns rios do bioma.

Observamos que, em alguns rios, a vazão tem diminuído até 50%, incluindo o Rio Carinhanha, dentro do Parque Nacional Grande Sertão Veredas. E isso não é um fenômeno isolado, está acontecendo em diferentes áreas do Cerrado”, afirmou.

O impacto do que acontece fora das áreas protegidas

Um dos principais pontos abordados foi a influência das atividades no entorno das unidades de conservação sobre a dinâmica hídrica.

O que acontece fora das áreas protegidas impacta diretamente o que acontece dentro delas. As divisões políticas não refletem a realidade da natureza”, destacou.

Segundo a especialista, processos como a expansão agrícola e a urbanização desordenada têm afetado diretamente o ciclo da água, especialmente por meio da compactação do solo.

A compactação do solo reduz a infiltração da água da chuva. Sem infiltração, os aquíferos não são recarregados e os rios deixam de ser alimentados”, explicou.

A água como uma poupança natural

Para tornar o tema mais acessível, Bianca utilizou uma analogia simples para explicar o funcionamento do sistema hídrico no Cerrado:

É como uma poupança. A natureza acumulou água ao longo do tempo. Mas, se a gente retira mais do que repõe, essa reserva se esgota. A infiltração é o que mantém essa poupança ativa”.

A fala reforça a importância da vegetação nativa e da integridade do solo para garantir a recarga hídrica, um processo essencial para a manutenção dos rios que abastecem grande parte do país.

Desafios e caminhos para a conservação

Outro ponto crítico levantado foi o uso intensivo da água e seus impactos associados, como a construção de canais de irrigação em áreas de monocultura.

Esses canais têm causado impactos não só na água, mas também na fauna, com registros de morte de animais como onças e lobos-guará”, pontuou.

Além disso, Bianca destacou a necessidade de aprimorar a aplicação dos instrumentos de gestão hídrica no Brasil.

A Política Nacional de Recursos Hídricos tem instrumentos importantes, mas precisamos avançar na sua aplicação para garantir sustentabilidade a longo prazo.

Nesse contexto, a Funatura tem atuado não apenas na produção de conhecimento técnico-científico, mas também na incidência em políticas públicas, em diálogo com instituições como o Ministério Público.

Cerrado em pé, água garantida

A roda de conversa reforçou a urgência de ampliar o entendimento sobre o papel do Cerrado na segurança hídrica e a necessidade de uma abordagem integrada entre conservação, uso do solo e gestão da água.

A perda da infiltração é a perda da água. E preservar o Cerrado é garantir água para todos, inclusive para quem vive longe dele, concluiu Bianca.

 

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