Iniciativa em parceria com a UFSC busca garantir a sobrevivência da vegetação na recuperação de nascentes em Goiás e Bahia.
A restauração de áreas hídricas degradadas no Cerrado ganhou um aliado microscópico, mas de alto impacto: a associação de fungos e raízes, chamada de micorrizas. A iniciativa integra as estratégias de restauração conduzidas pela Funatura e marca a implementação de uma aplicação pioneira dessa técnica em espécies nativas voltadas à recuperação ambiental no bioma.
A ação faz parte do projeto Onde a Onça Bebe Água: Comunidades e Bem-Viver, executado pela Funatura em parceria com a Petrobras, e concluiu uma etapa estratégica de produção de mudas com inoculação de microrganismos do solo.
O experimento, realizado em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), busca solucionar um dos maiores desafios da restauração ambiental: a baixa taxa de sobrevivência de mudas em solos empobrecidos ou impactados. A ação incluiu ainda a capacitação de beneficiários e voluntários nos municípios de Mambaí (GO) e Cavalcante (GO), com desdobramentos previstos para áreas do oeste da Bahia, integrando ciência e comunidade.
As micorrizas são associações simbióticas entre fungos micorrízicos e as raízes das plantas. Atuam como uma extensão do sistema radicular, ampliando a capacidade de absorção de água e nutrientes e aumentando a resiliência das plantas em solos com limitações químicas.
“No Cerrado, o solo tem a característica de reter o fósforo, o que dificulta o acesso das plantas a esse nutriente essencial”, explica o engenheiro agrônomo Cláudio Soares, doutor em microbiologia do solo pela UFSC. “Ao colonizar a raiz, esses fungos permitem que a planta explore áreas maiores do solo e adquira o fósforo que antes estava indisponível”.
Segundo o pesquisador, a inovação reside no uso aplicado à restauração. Embora consolidado na agricultura de larga escala desde 2018, o uso desse bioinsumo em espécies nativas para recuperação ambiental no Cerrado ainda é inédito e demanda validação científica em campo. “Nossa ideia é que essas mudas apresentem maior sobrevivência e incorporem um grande volume de material orgânico, fazendo com que o solo recupere sua atividade biológica naturalmente”, afirma Soares.
A pesquisa teve início em julho de 2025, com a coleta de solo nas áreas preservadas para a identificação de fungos nativos. No Laboratório de Microrganismos e Processos Biotecnológicos da UFSC, esses fungos foram multiplicados para criar um inoculante específico para o bioma.
Ao todo, foram produzidas 10.500 mudas nativas organizadas em três grupos experimentais para avaliação comparativa de desempenho:
- Micorrizas do Cerrado: Mudas inoculadas com fungos nativos multiplicados em laboratório;
- Comercial: Mudas com fungos disponíveis no mercado agrícola;
- Sem inoculantes: Mudas sem qualquer tipo de inoculação.
Em Mambaí, foram cultivadas 7.200 mudas (2.400 por tratamento). Já em Cavalcante, o viveiro recebeu 3.300 mudas (1.100 por tratamento).
As áreas de plantio foram definidas com base em critérios técnicos e diagnóstico prévio das condições hídricas do solo. Em Cavalcante, por exemplo, o foco é a Fazenda Siriema, onde o proprietário relatou o secamento intermitente de uma nascente.
A expectativa é que, com plantas mais vigorosas e um solo biologicamente ativo, o ciclo hidrológico local seja progressivamente restabelecido, fortalecendo a segurança hídrica das propriedades e do território.
Para garantir a precisão dos dados, o projeto adota uma demarcação científica rigorosa no campo. “Delimitamos o ensaio em blocos casualizados e demarcamos todo o experimento com bandeiras para identificar os tratamentos. Faremos quadrantes para colher amostragens e obter resultados robustos sobre a evolução do solo”, detalha a engenheira agrônoma Emanuella Pille, integrante da equipe técnica.
A adoção de soluções baseadas em processos ecológicos naturais reafirma o compromisso da Funatura com a restauração do Cerrado, integrando ciência aplicada, manejo territorial e fortalecimento comunitário como estratégias complementares para garantir a sobrevivência da vegetação, a recuperação de nascentes e a conservação da biodiversidade no bioma.