Projeto Onde a Onça Bebe Água combina armadilhas fotográficas e rastreamento de pegadas para mapear corredores ecológicos

Instalação de armadilhas fotográficas marca nova etapa do projeto no Cerrado, que já registrou 40 espécies de mamíferos e busca conectar áreas críticas entre o Distrito Federal, Goiás e a Bahia.

O Projeto Onde a Onça Bebe Água iniciou neste mês mais uma etapa de monitoramento de fauna, com a instalação de armadilhas fotográficas em pontos estratégicos do Cerrado. O objetivo é identificar corredores ecológicos — caminhos que permitem a movimentação de espécies como a onça-pintada (Panthera onca) entre diferentes áreas com vegetação natural, cada vez mais fragmentadas pelo avanço da ocupação humana no bioma.

A nova fase combina duas metodologias complementares: o armadilhamento fotográfico e o rastreamento de sinais naturais, como pegadas, fezes e tocas. Juntas, elas compõem um retrato mais completo das espécies que estão de fato usando essas áreas como rota de deslocamento.

Fezes de lobo-guará encontrado no rastreio de fauna. Foto: Thales Lima

Onça-pintada como espécie-guia

Coordenadora do projeto, Samantha Rincón explica que a onça-pintada foi escolhida como espécie focal por reunir características que a tornam um indicador ambiental estratégico. “Ela é uma espécie-chave que regula o equilíbrio dos ecossistemas onde está presente e cumpre um importante papel ecológico”, afirma. Segundo Rincón, a onça também funciona como espécie guarda-chuva: por precisar de grandes áreas de vida bem conservadas, com presença de presas e qualidade mínima de habitat, protegê-la significa proteger simultaneamente outras espécies que dividem o mesmo ambiente, como a onça-parda, a anta, o queixada e o cateto.

O trabalho de identificação de corredores começa com um mapeamento preliminar em escritório, feito por sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica (SIG), considerando variáveis ambientais relevantes para o deslocamento da espécie alvo. A partir daí, a equipe parte a campo para confirmar, ponto a ponto, a presença ou ausência das espécies e refinar esses trajetos potenciais.

A instalação de câmeras fotográficas registra a passagem de animais em áreas estratégicas. Foto: Thales Lima

No primeiro ano de monitoramento, as câmeras foram instaladas na região entre o Parque Nacional de Brasília e o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, cobrindo municípios goianos como Formosa, São João d’Aliança e Flores de Goiás — áreas até então sem registros sistemáticos da presença da onça-pintada. Neste segundo ano, o monitoramento avançou para leste, entre o Parque Estadual Terra Roncas, a Chapada dos Veadeiros e o Grande Sertão Veredas, incluindo pontos em Mambaí, Damianópolis e o município de Cocos, na Bahia.

O que os números já mostram

Dados da última campanha de campo dão a dimensão do esforço em curso. Das 76 câmeras instaladas, 69 foram recuperadas — sete foram furtadas ao longo do período de amostragem. O armadilhamento fotográfico resultou em 2.300 registros de indivíduos, distribuídos em 35 espécies de mamíferos de médio e grande porte.

Entre os destaques, a ordem Carnivora apresentou a maior riqueza de espécies, com 14 registradas, incluindo o quati, o cachorro-do-mato, a jaguatirica, a onça-pintada e a onça-parda. Entre os artiodáctilos, o queixada foi a espécie mais abundante, com 221 registros, concentrados, entretanto, em um único ponto de amostragem, seguido pelo caititu e pelo veado-catingueiro. 

Além de pegadas, são verificados marcas em árvores, tocas e fezes de animais. Foto: Thales Lima

Somando as duas metodologias, o projeto já confirmou a presença de 40 espécies, dentro de um universo de 45 espécies de mamíferos de médio e grande porte com ocorrência potencial na região. Espécies como a ariranha e o cervo-do-pantanal ainda não tiveram registro seguro por nenhuma das técnicas.

Cerrado, floresta e a arte de ler o chão

Consultor de monitoramento e rastreamento de fauna do projeto, Julio Dalponte destaca que o Cerrado oferece condições particularmente favoráveis à leitura de rastros. “O Cerrado é uma área aberta, com espaços arenosos que facilitam muito a visualização de pegadas”, diz. A comparação com biomas florestais, como Amazônia e Mata Atlântica, é direta: ali, a grande quantidade de folhas no solo dificulta a identificação de sinais, embora outros indícios da presença animal ainda possam ser percebidos.

Para Dalponte, mapear corredores ecológicos é fundamental porque eles funcionam como vias de ligação entre áreas de maior concentração de fauna — e frequentemente estão associados a cursos d’água, o que reforça sua funcionalidade para a movimentação das espécies.

Em solos arenosos, há uma grande facilidade de identificação de pegadas. Foto: Thales Lima

Questionado sobre os principais desafios logísticos de instalar e revisar equipamentos em uma área tão extensa, o consultor relativiza as dificuldades técnicas. “Não há grandes problemas na prática da instalação. Um dos maiores é a perda de equipamento, seja por mau funcionamento, por eventos naturais como inundações ou por furtos, que acontecem com certa frequência”, relata. Segundo ele, o trabalho de campo exige caminhadas longas e exposição a condições climáticas variadas, mas a instalação das câmeras em si é um processo tranquilo.

Duas metodologias, um retrato mais completo

Dalponte explica que rastreamento de sinais e armadilhamento fotográfico se complementam. “Aspectos que o rastreamento não consegue detectar, a câmera fotográfica ajuda muito, e vice-versa”, afirma. Câmeras trap, segundo ele, costumam ter dificuldade para capturar espécies mais raras ou de maior mobilidade, além de alguns grupos de médio porte, como certas espécies de tatu. Já o rastreamento pode ser limitado quando se trata de diferenciar pegadas de felinos pequenos — como gatos-do-mato e até gatos domésticos —, casos em que a imagem da câmera se torna decisiva.

Pegada de onça-pintada. Foto: Thales LIma

Um exemplo recente ilustra bem essa complementaridade: durante a atual campanha, a equipe confirmou pela primeira vez, por meio de rastreamento de pegadas em uma área de Damianópolis (GO), a presença de uma matilha de cachorros-vinagre (Speothos venaticus) — espécie rara e de difícil detecção tanto por câmeras quanto por sinais de solo.

Próximos passos

Os dados coletados em campo serão usados para refinar os corredores preliminares definidos por modelagem, transformando-os em rotas mais precisas e delimitando com maior exatidão as áreas críticas para a conectividade da fauna. As informações também alimentarão publicações científicas voltadas a preencher lacunas de conhecimento sobre a distribuição de espécies no Cerrado — incluindo a própria onça-pintada.

Para Rincón, a urgência do trabalho está ligada ao ritmo de transformação do bioma. “Num cenário de transformação acelerada do Cerrado, precisamos identificar quais são as áreas críticas para manter a conectividade de uma espécie como a onça-pintada e buscar estratégias que garantam a conservação dessas áreas”, diz. Mais do que proteger um único predador, o projeto aposta em preservar seus caminhos,  o que ajuda a manter de pé toda uma rede de vida que depende dele para se manter conectado.

Primeira câmera instalada da nova campanha. Foto: Thales Lima

O Projeto Onde a Onça Bebe Água integra a atuação da Funatura pela conservação da biodiversidade no Cerrado, aliando pesquisa, monitoramento da fauna e ações voltadas à conservação dos territórios. A iniciativa contribui para ampliar o conhecimento sobre espécies e áreas estratégicas para a conectividade da paisagem e apoiar estratégias de conservação baseadas em evidências. 

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