A Chapada dos Veadeiros, um dos territórios de maior relevância socioambiental do Cerrado, ganha um novo projeto para transformar sua biodiversidade em renda e conservação. Com duração de 16 meses, o projeto Baru com Baunilha: Sociobioeconomia na Chapada dos Veadeiros será executado pela Fundação Pró-Natureza (Funatura) em Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, São João d’Aliança, Nova Roma e Teresina de Goiás, no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
A proposta foi aprovada na Chamada de Projetos 12/2025, do Programa COPAÍBAS, iniciativa do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) financiada pela Iniciativa Internacional da Noruega para o Clima e Florestas (NICFI).

Cadeias da sociobiodiversidade no centro
O projeto tem como foco a qualificação das cadeias de valor da baunilha do Cerrado, do baru e de seus derivados. O objetivo é ativar ecossistemas de negócios comunitários que integrem produção sustentável, inovação, acesso a mercados e instrumentos financeiros, sempre com governança participativa e geração de renda para as comunidades.
Segundo a proposta, a região reúne grande riqueza biológica, importância hídrica e presença histórica de agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios como a falta de padronização, baixa agregação de valor às cadeias produtivas que resultam na geração de renda muito aquém de seu potencial, pressões externas como desmatamento, incêndios, mineração e uso de agrotóxicos. A aposta é que fortalecer as economias comunitárias é também uma forma de conservar o Cerrado.
Três frentes de atuação
As ações do projeto estão organizadas em três objetivos específicos:
Produção com qualidade e inovação: Estão previstas oficinas, assistência técnica e visitas de campo para melhorar o manejo, a colheita e o pré-beneficiamento. O projeto vai implantar soluções comunitárias de beneficiamento e desidratação, apoiar a padronização e a conformidade sanitária e difundir tecnologias sociais para produção de biofertilizantes e defensivos naturais. O Instituto Federal de Brasília (IFB) atuará como parceiro técnico-científico, com pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos, análises físico-químicas do baru e da baunilha e apoio ao dimensionamento e à definição dos equipamentos de uma cozinha multifuncional.
Mercados diferenciados e identidade territorial: O projeto prevê estudos de mercado, estratégias coletivas de comercialização, capacitações em negociação e planejamento logístico comunitário. Também está prevista a criação participativa de uma marca coletiva, rótulos, embalagens e materiais de comunicação que valorizem a origem e os modos de vida locais. Outras ações incluem a participação em feiras de referência, como por exemplo a Expointer e a BioBrazil Fair & Naturaltech, e a estruturação de um espaço coletivo de venda em Alto Paraíso. Para dar credibilidade aos produtos, será criado ou fortalecido um Sistema Participativo de Garantia (SPG), por meio de um OPAC ou OCS, voltado ao acesso a mercados orgânicos.
Finanças comunitárias: Será desenhado um mecanismo financeiro comunitário, na forma de fundo rotativo, com regras e governança definidas de forma participativa e mecanismos de transparência e controle social. As formações incluirão educação financeira, gestão do fundo rotativo solidário e acesso a crédito, como por exemplo o Pronaf.
Quem participa?
O projeto será implementado com organizações locais. A Associação dos Produtores e do Meio Ambiente do Sertão (Apromas), fundada em 1996 e sediada na zona rural de Alto Paraíso, reúne 46 associados e impacta cerca de 60 famílias, com experiência nas cadeias do baru e da baunilha. A Cooper Frutos do Paraíso, criada em 2006, atua em seis municípios e articula PNAE, PAA, varejo local e vendas diretas. Ela deve beneficiar cerca de 720 pessoas, entre elas 25 agricultores familiares que se identificam como quilombolas. A Associação Quilombo Kalunga (AQK) representa o maior território quilombola do Brasil, com 261 mil hectares, distribuídos entre Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás.

As metas incluem 100 participantes em formações, com pelo menos 50% de mulheres e jovens nas atividades formativas, de governança, produtivas e comerciais. Também estão previstos três produtos com processos padronizados e adequação sanitária, uma marca coletiva, um OPAC ou OCS em operação e um mecanismo financeiro comunitário validado. A divulgação dos resultados aos agricultores familiares, extrativistas e às comunidades quilombolas será feita por informes bimestrais, reuniões presenciais, rodas de conversa, encontros e/ou seminários.
A execução do Baru com Baunilha se soma à trajetória de 40 anos da Funatura na conservação da biodiversidade e no desenvolvimento sustentável do Cerrado. Ao longo de quatro décadas, a instituição tem atuado na criação e no fortalecimento de áreas protegidas, na conservação de espécies e paisagens, no apoio a comunidades e organizações locais e na valorização da sociobiodiversidade. Na Chapada dos Veadeiros, essa atuação se traduz em uma presença construída em parceria com diferentes atores do território, articulando conservação, geração de renda e fortalecimento das iniciativas locais.
Para garantir a continuidade após o encerramento, o projeto aposta no fortalecimento da governança local, na criação de sistemas participativos OPAC ou OCS, no espaço coletivo de comercialização e no fundo rotativo solidário. Assim, as comunidades poderão manter e ampliar os negócios da sociobiodiversidade para além do período de execução do projeto.