Filme “Sociobiodiversos” é exibido durante reunião do Conama, em Brasília

Produção realizada no âmbito do projeto Rede Sociobio Cerrado e Pantanal retrata a relação entre povos e comunidades tradicionais, agroextrativismo e conservação no Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu

O documentário Sociobiodiversos – Comunidades e Natureza no Cerrado foi exibido no dia 2 de setembro, durante reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), realizada na sede do Ibama, em Brasília. Produzido pela Fundação Pró-Natureza (Funatura) e pelo Instituto Rosa e Sertão, o filme apresenta histórias e experiências de povos e comunidades tradicionais que vivem e trabalham no Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu, no norte e noroeste de Minas Gerais.

A exibição reuniu conselheiros e conselheiras do Conama, representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), organizações da sociedade civil e parceiros do projeto Rede Sociobio Cerrado e Pantanal. Antes da sessão, os participantes também puderam conhecer e experimentar produtos da sociobiodiversidade do Cerrado em um café da manhã com produtos fornecidos pela Central do Cerrado.

Ao abrir a apresentação, o superintendente executivo da Funatura, Pedro Bruzzi, destacou que a conservação do Cerrado está diretamente relacionada à permanência e ao fortalecimento das comunidades que vivem em seus territórios.

“Não existe conservação efetiva sem a sociobiodiversidade. Quando as políticas públicas alcançam essas comunidades, estruturando suas cadeias produtivas, promovemos não apenas o bem-estar social, mas a preservação ambiental”, afirmou.

Para Pedro, o documentário também permite apresentar a conservação a partir das experiências que demonstram ser possível conciliar proteção da natureza, geração de renda e valorização dos modos de vida tradicionais.

“O ambientalismo não se resume apenas a alertas sobre crises; ele também é feito de exemplos de sucesso e esperança, como o que vocês verão no vídeo”, ressaltou.

Uma rede pela sociobiodiversidade

Sociobiodiversos foi produzido no âmbito do Projeto Rede Sociobio Cerrado e Pantanal, executado pela Funatura em parceria com organizações que atuam no território e com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT).

O projeto atua principalmente no Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu, território de aproximadamente 1,8 milhão de hectares que reúne unidades de conservação, Terras Indígenas Xacriabá, territórios quilombolas, comunidades tradicionais e propriedades privadas.

A iniciativa busca fortalecer processos coletivos de gestão socioprodutiva, territorial e ambiental de agricultores familiares e agroextrativistas organizados em cooperativas da região, contribuindo para a geração de renda a partir dos produtos do Cerrado e valorizando especialmente a participação de mulheres e jovens.

Integram a rede a Cooperativa Regional de Produtores Agrissilviextrativistas Sertão Veredas (Coopsertão), a Cooperativa da Agricultura Familiar Sustentável com Base na Economia Solidária (Copabase), a Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu), além da Central do Cerrado, Núcleo do Pequi, Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e Instituto Rosa e Sertão.

Representante da Funatura no Conama, Cesar Victor do Espírito Santo destacou que o documentário apresenta justamente as pessoas que dão vida a essa rede.

“O filme retrata um pouco do trabalho dos extrativistas da região do Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu que estão vinculados às cooperativas. Nossa proposta é unir a questão ambiental à questão cultural, valorizando esse território”, explicou.

Cesar também chamou atenção para a dimensão cultural da região. O Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu está inserido no território que inspirou Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, obra que completa 70 anos em 2026.

Assim como o PN Cavernas do Peruaçu foi reconhecido pela Unesco como um patrimônio mundial natural da humanidade, entendemos que o cenário real da obra, representado pelo Parque Nacional Grande Sertão Veredas e pelo Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu seja, também, reconhecido como um patrimônio cultural e natural do Brasil e da humanidade.

Antes da exibição, ele recuperou uma passagem da obra para convidar o público a olhar para as pessoas e paisagens retratadas no documentário:

“Vou lhe falar.
Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei.

Ninguém ainda
não sabe. Só umas raríssimas pessoas –

e só essas
poucas veredas, veredazinhas.

O que muito lhe
agradeço é a sua fineza de atenção.”

Histórias contadas por quem vive o Cerrado

Com direção e fotografia de Henrique Mourão e roteiro de Marcela Bertelli, Sociobiodiversos – Comunidades e Natureza no Cerrado percorre comunidades e cooperativas do Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu a partir das vozes de quem vive do Cerrado e contribui diariamente para sua conservação.

As conversas com associadas e associados das cooperativas agroextrativistas revelam uma rede que conecta territórios conservados, conhecimentos tradicionais, trabalho comunitário, geração de renda e produtos que chegam à casa de consumidores em diferentes regiões do país.

“O filme nasceu da vontade de mostrar a sociobiodiversidade a partir de quem a constrói todos os dias. São as próprias comunidades que nos conduzem pelo território e mostram como o cuidado com o Cerrado está presente no trabalho, nos saberes, na cultura e nas relações que mantêm entre si e com a natureza. Mais do que contar histórias individuais, buscamos revelar essa rede de pessoas e cuidados que mantém o Cerrado vivo”, afirmou Marcela Bertelli, roteirista do filme.

Dar visibilidade também é fortalecer políticas públicas

A secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável, Édel Nazaré Santiago de Moraes, ressaltou durante a apresentação a importância do audiovisual para ampliar o conhecimento sobre a diversidade dos povos e comunidades tradicionais brasileiros.

“Desde o início da nossa gestão, estabelecemos como prioridade o princípio de que não é possível defender os povos e comunidades tradicionais sem conhecê-los profundamente”, afirmou.

Segundo a secretária, registrar e divulgar essas histórias também contribui para ampliar o alcance da agenda de conservação e dos direitos das comunidades.

“Dar visibilidade a esses povos fortalece substancialmente nossa agenda política e social”, destacou.

Édel também relacionou a mensagem apresentada pelo documentário aos desafios contemporâneos enfrentados pelo Cerrado, especialmente diante da degradação da terra, das secas e das mudanças climáticas.

“Defender a vida passa, necessariamente, por reconhecer o papel dos povos e comunidades tradicionais que, por meio de sua resistência e sabedoria, garantem a sobrevivência desses biomas.”

Ao final, a secretária convidou os participantes a assistirem à produção “com o olhar do coração” e destacou a capacidade de construção coletiva das comunidades retratadas.

A exibição de Sociobiodiversos no Conama reforça uma mensagem que atravessa o próprio projeto Rede Sociobio Cerrado e Pantanal: conservar o Cerrado também significa reconhecer e fortalecer as pessoas, os conhecimentos, as culturas e as atividades produtivas que historicamente contribuem para manter o bioma vivo.

Ficha técnica

Sociobiodiversos – Comunidades e Natureza no Cerrado
Direção e fotografia: Henrique Mourão, ABC
Roteiro: Marcela Bertelli
Produção: Fundação Pró-Natureza (Funatura) e Instituto Rosa e Sertão
Projeto: Rede Sociobio Cerrado e Pantanal
https://youtu.be/IQr6qSEwvc0?si=90DafmttDFqQwUfs

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