Criada em 1986, a Fundação Pró-Natureza construiu uma trajetória marcada pela proteção da biodiversidade, pelo fortalecimento de áreas protegidas e pelo trabalho realizado em parceria com pessoas, comunidades e instituições.
Em 30 de julho de 1986, um grupo de pesquisadores, gestores públicos e conservacionistas reuniu-se em Brasília com um propósito comum: criar uma organização da sociedade civil dedicada à proteção da natureza, com especial atenção ao Cerrado.
Nascia a Fundação Pró-Natureza — Funatura.
A iniciativa surgiu em um período de importantes transformações no Brasil. A política ambiental começava a se estruturar, a sociedade civil ampliava sua participação no debate público e a conservação da biodiversidade ganhava espaço diante do avanço da ocupação e da transformação dos ecossistemas brasileiros.
Muitos dos fundadores da Funatura já haviam construído uma trajetória relevante na conservação da natureza e em instituições como a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza. Entre eles estavam Maria Tereza Jorge Pádua, Ibsen Gusmão Câmara, Helmut Sick e Paulo Antas, além de outros profissionais que contribuíram para estabelecer as bases da nova Fundação.
Desde sua origem, a Funatura assumiu o compromisso de transformar conhecimento em ação. A produção de estudos científicos, a criação e o fortalecimento de áreas protegidas, a conservação de espécies e a articulação com o poder público e a sociedade passaram a orientar uma atuação que, ao longo das décadas, alcançaria diferentes regiões e biomas do país.
Uma história ligada ao Cerrado
A criação da Funatura também expressava uma preocupação urgente com o Cerrado. Naquele período, o bioma passava por uma rápida transformação, impulsionada pela expansão da fronteira agropecuária e por um modelo de desenvolvimento que pouco reconhecia sua biodiversidade e sua importância ecológica.
Foi nesse cenário que a instituição assumiu um de seus primeiros grandes desafios: realizar os estudos e as articulações necessários para proteger a região do Grande Sertão Veredas, paisagem imortalizada na obra de João Guimarães Rosa.
O trabalho contribuiu para a criação, em 1989, do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, um marco na trajetória da Funatura e na conservação do Cerrado. A atuação da Fundação na região, porém, não terminou com a criação da unidade de conservação. Ao longo dos anos, envolveu apoio à sua gestão, relacionamento com as comunidades, proteção da biodiversidade e iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável no entorno do Parque.
Essa permanência ajudou a construir uma das características mais importantes da Funatura: o compromisso com processos de longo prazo. Projetos têm início e fim, mas a conservação exige continuidade, presença nos territórios e capacidade de renovar estratégias diante de novos desafios.

A proteção da natureza para além dos limites dos parques
Ainda nos primeiros anos, a Funatura também voltou sua atenção à conservação em propriedades privadas.
O Programa Santuários da Vida Silvestre foi criado em 1987 para identificar e proteger áreas relevantes para espécies raras, endêmicas ou ameaçadas. A iniciativa surgiu antes mesmo da regulamentação das Reservas Particulares do Patrimônio Natural e ajudou a demonstrar que proprietários rurais e sociedade civil também poderiam exercer um papel estratégico na proteção da biodiversidade.
Esse trabalho atravessou as décadas e permanece presente na atuação da Fundação. Hoje, o apoio à criação e ao fortalecimento de RPPNs contribui para conservar áreas naturais, conectar paisagens e ampliar a participação da sociedade na proteção dos diferentes biomas brasileiros.
As áreas protegidas públicas e privadas tornaram-se, assim, dois eixos complementares de uma mesma visão: a biodiversidade precisa ser conservada em escalas capazes de considerar não apenas espaços isolados, mas as relações entre ecossistemas, cursos d’água, espécies e territórios.

Uma atuação que evolui com os desafios da conservação
Ao longo de 40 anos, a Funatura ampliou sua forma de atuar sem se afastar dos princípios que orientaram sua criação.
A experiência acumulada mostrou que proteger a biodiversidade também exige compreender as condições sociais, econômicas e culturais dos territórios. A conservação passou a incorporar, de maneira cada vez mais integrada, o apoio às comunidades tradicionais, a valorização dos saberes locais, a restauração ecológica, a segurança hídrica, o monitoramento da fauna e da flora e o fortalecimento de atividades produtivas sustentáveis.
Essa evolução também está refletida na missão institucional da Funatura: defender o meio ambiente no Brasil, com ênfase na manutenção da diversidade biológica, na melhoria da qualidade de vida e no uso sustentável dos recursos naturais em todos os biomas do país, especialmente no Cerrado e no Pantanal.
Hoje, a Fundação continua desenvolvendo estudos, projetos e articulações que aproximam ciência e atuação em campo. Trabalha com instituições públicas e privadas, universidades, organizações da sociedade civil, pesquisadores, proprietários rurais, agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais.
São diferentes conhecimentos e experiências reunidos para construir soluções adequadas à realidade de cada território.
Uma trajetória construída por muitas pessoas
Chegar aos 40 anos é também reconhecer que nenhuma história institucional é construída sozinha.
A trajetória da Funatura reúne diferentes gerações de fundadores, conselheiros, dirigentes, equipes técnicas e administrativas, pesquisadores, parceiros e apoiadores. Reúne ainda as pessoas que vivem nos territórios e que compartilham seus conhecimentos, suas experiências e seu compromisso com a conservação.
A presença das mulheres também atravessa essa história. Desde a atuação decisiva de Maria Tereza Jorge Pádua na criação da Fundação, muitas profissionais contribuíram para consolidar a instituição e ampliar sua presença no campo da conservação da natureza.
Cada projeto realizado, cada área protegida fortalecida, cada estudo produzido e cada parceria construída é parte de um trabalho coletivo que ultrapassa os limites da própria organização.

Um compromisso que continua
Celebrar os 40 anos da Funatura é reconhecer a contribuição de uma instituição que nasceu da convicção de que a sociedade civil poderia exercer um papel decisivo na proteção do patrimônio natural brasileiro.
É também olhar para o presente e compreender a dimensão dos desafios que permanecem.
A perda de biodiversidade, as mudanças climáticas, a fragmentação dos ecossistemas e a pressão sobre os recursos hídricos tornam a conservação cada vez mais urgente. Enfrentar esses desafios exige conhecimento, cooperação, continuidade e capacidade de construir soluções que considerem, ao mesmo tempo, a natureza e as pessoas.
Aos 40 anos, a Funatura reafirma esse compromisso.
Com a experiência de quem ajudou a construir importantes caminhos para a conservação e com a disposição de continuar aprendendo, inovando e atuando ao lado de todos aqueles que compartilham esse propósito.
Porque esta história foi construída por muitas mãos.
E continuará sendo escrita por meio das conexões entre natureza, pessoas e territórios.