Quando um território conta sua própria história: o legado de quatro décadas da Funatura no Grande Sertão Veredas

Durante o XXIV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, comunidades, pesquisadores, cooperativas e parceiros vivenciaram um dia de diálogos em que o reconhecimento coletivo da trajetória construída pela Funatura ao lado de quem vive e protege o Cerrado foi objeto de destaque.

Chapada Gaúcha (MG) — Ao longo de um dia inteiro de debates, uma mesma ideia atravessou todas as mesas do evento “Funatura nos Caminhos do Grande Sertão Veredas”. Ela apareceu nas falas de representantes de comunidades tradicionais, cooperativas, organizações da sociedade civil, pesquisadores, gestores públicos e parceiros históricos da Fundação Pró-Natureza (Funatura). Sem que fizesse parte da programação, todos acabaram reconstruindo uma mesma narrativa: a história da conservação do Grande Sertão Veredas também passa pelos 40 anos de atuação da Funatura na região.

Realizado como parte da programação do XXIV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, o encontro reuniu diferentes gerações para discutir temas como sociobioeconomia, restauração ecológica, pesquisa científica, conservação da biodiversidade, governança territorial e fortalecimento das comunidades. Mais do que apresentar projetos e resultados, o evento tornou-se um espaço de memória, reconhecimento e projeção de futuro.

Ao longo das conversas, ficou evidente que a atuação da Funatura ultrapassou, há muito tempo, os limites da criação e gestão de áreas protegidas. Ao longo dessa trajetória, a instituição ajudou a fortalecer organizações comunitárias, impulsionar cadeias da sociobiodiversidade, estimular pesquisas científicas, promover a restauração de paisagens degradadas e construir uma ampla rede de parceiros comprometidos com a conservação do Cerrado. 

Quatro décadas depois do início dessa trajetória, foram justamente as pessoas que vivem, pesquisam e trabalham no território que deram voz ao legado construído coletivamente. Um legado que continua sendo escrito todos os dias, por diferentes mãos, em defesa de um dos mais importantes mosaicos de conservação do Brasil.

Quatro décadas construindo caminhos no Grande Sertão Veredas

A presença da Funatura no Grande Sertão Veredas remonta à década de 1980, quando a instituição teve papel decisivo na criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, unidade de conservação que se tornou um marco para a proteção do Cerrado e de suas veredas.

Essa atuação acompanhou as transformações do próprio território. Da criação de áreas protegidas ao fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade, passando pela pesquisa científica, restauração ecológica e apoio à criação de RPPNs, a Funatura consolidou uma forma de atuação baseada na cooperação, no diálogo e na valorização dos conhecimentos locais. 

Foto: Waynner Carvalho

Essa construção coletiva fez com que a atuação da instituição deixasse de ser percebida apenas pela proteção da biodiversidade. Ela passou a ser reconhecida também pela capacidade de conectar pessoas, conhecimentos e organizações em torno de um objetivo comum: conservar o Cerrado por meio de soluções construídas junto às comunidades.

Tal abordagem foi adotada desde o início do trabalho, considerando que a Funatura foi criada em 1986 e o Parque em 1989, o processo de realocação das comunidades tradicionais que viviam no território onde foi criado o parque é considerado um dos processos de maior sucesso em todo Brasil. Em função das consultas, diálogo constante e construção participativa, foi possível encontrar uma solução consensuada com a comunidade, que hoje se encontra no Projeto de Assentamento Gentil São Francisco, vizinho ao Parque. É comum, como ocorreu no evento, relatos positivos de pessoas da comunidade a respeito do processo de realocação.

Foi essa trajetória que serviu de inspiração para o encontro realizado em Chapada Gaúcha.

Na abertura do evento, o coordenador de projetos da Funatura, Cesar Victor do Espírito Santo, destacou que celebrar os 40 anos da instituição na região representa, acima de tudo, reconhecer uma história construída em parceria com quem vive e trabalha no território.

Ao longo desses 40 anos, aprendemos que conservar o Cerrado significa caminhar junto com as comunidades, fortalecendo iniciativas locais e construindo soluções compartilhadas para o território. O Grande Sertão Veredas faz parte da história da Funatura, assim como a Funatura também passou a fazer parte da história deste território.”

Foto: Alen Guimarães

Ao reunir antigos parceiros e novas lideranças, o encontro demonstrou que esse processo permanece vivo, impulsionado por novas agendas de conservação, pesquisa, restauração e fortalecimento da sociobiodiversidade.

O território conta essa história

Ao longo do encontro, as mesas deixaram de ser apenas espaços para apresentação de projetos ou discussão de temas técnicos. Em diferentes momentos, elas se transformaram em um exercício coletivo de memória. À medida que representantes de cooperativas, organizações sociais, comunidades tradicionais, pesquisadores e parceiros compartilhavam suas experiências, uma mesma percepção emergia: a história da conservação no Grande Sertão Veredas também é resultado de uma construção coletiva da qual a Funatura faz parte há quatro décadas.

Mais do que depoimentos individuais, essas falas formaram um reconhecimento coletivo da trajetória construída pela instituição ao longo de quatro décadas. 

Um dos depoimentos mais marcantes foi o de Fábio Becker, presidente da Coop Sertão Veredas, ao relembrar como nasceu a cooperativa, hoje referência na comercialização de produtos da sociobiodiversidade do Cerrado.

Sem a Funatura não existiria a Coop Sertão Veredas. A Coop Sertão é uma cria da Funatura. Foi a Funatura que pensou na ideia da cooperativa, pensou no extrativismo e iniciou esse processo. Hoje, tudo o que a cooperativa representa é resultado dessa construção coletiva.”

Foto: Paulo Henrique

Criada para fortalecer o extrativismo sustentável e ampliar as oportunidades de geração de renda para as comunidades da região, a cooperativa reúne atualmente centenas de cooperados, atua em diversos municípios do norte de Minas Gerais e comercializa produtos derivados dos frutos do Cerrado, agregando valor à produção local e fortalecendo a economia regional.

O reconhecimento ao papel da Fundação também apareceu em relatos pessoais.

Emocionada, Valéria Silva, gestora do Parque Estadual de Serra das Araras e REDS Veredas do Acari, lembrou que sua primeira oportunidade profissional surgiu justamente na Funatura, experiência que ajudou a construir toda a sua trajetória na conservação ambiental.

“A primeira oportunidade que tive foi através da Funatura. Se hoje estou à frente da gestão de unidades de conservação, também preciso agradecer à Funatura por essa trajetória.”

Foto: Paulo Henrique

Quem também resumiu sua relação com a instituição em poucas palavras foi José Elias, gestor da RPPN Porto Cajueiro e um dos parceiros históricos da atuação da Fundação na região.

“Eu sou cria da Funatura.”

Foto: Paulo Henrique

Ao recordar os primeiros projetos desenvolvidos junto às comunidades do entorno do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, ele lembrou que a conservação nunca foi tratada apenas como proteção da natureza, mas como uma oportunidade de fortalecer pessoas, conhecimentos e formas sustentáveis de viver no Cerrado.

As manifestações de reconhecimento não ficaram restritas às organizações locais. Representando o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Angela A. Roma Stoianoff, coordenadora-geral de Povos e Comunidades Tradicionais, destacou que iniciativas como as desenvolvidas pela Funatura ajudaram a transformar em realidade princípios que, durante muitos anos, orientaram a construção das políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade e aos povos e comunidades tradicionais.

Mais do que parabenizar a Funatura, eu gostaria de agradecer o trabalho da instituição. Vocês deram forma a tudo o que sonhamos no Ministério do Meio Ambiente.”

Foto: Paulo Henrique

Ao longo das mesas, esses depoimentos foram compondo uma narrativa comum. Mais do que recordar projetos ou resultados, eles evidenciaram que a atuação da Funatura ajudou a consolidar organizações comunitárias, fortalecer cadeias produtivas da sociobiodiversidade, formar lideranças, ampliar redes de cooperação e aproximar a conservação da realidade das pessoas que vivem no território.

Quarenta anos depois, esse talvez tenha sido o maior reconhecimento recebido pela instituição: ver sua história contada por quem ajudou a construí-la.

Restaurar também é restaurar pessoas

Se a bioeconomia mostrou que conservar pode gerar renda, a mesa seguinte revelou outra dimensão dessa transformação: restaurar uma paisagem também significa fortalecer comunidades, valorizar conhecimentos tradicionais e preparar novas gerações para cuidar do território.

O tema foi discutido na mesa “Restauração ecológica no Grande Sertão Veredas: ciência, comunidades e futuro”, que apresentou iniciativas desenvolvidas no Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu voltadas à recuperação de áreas degradadas, conservação de nascentes e veredas, formação de brigadas de restauração, coleta de sementes e produção de mudas nativas.

Foto: Paulo Henrique

Mais do que recuperar áreas alteradas, os projetos têm buscado envolver as comunidades desde o planejamento das ações, reconhecendo que a conservação só produz resultados duradouros quando é construída com quem vive no território.

Esse entendimento apareceu de forma especialmente sensível na fala de Flávia Nogueira, coletora de sementes, geraizeira e quilombola, da Comunidade do Veredão e integrante do grupo Cerrado Vive, ao refletir sobre o significado da restauração.

“A restauração não tem como foco apenas levantar o Cerrado. A restauração também restaura as pessoas.”

Foto: Paulo Henrique

A frase sintetizou um dos principais aprendizados compartilhados durante o encontro. Ao restaurar uma vereda, recuperar uma nascente ou recompor uma área degradada, também se fortalecem vínculos comunitários, geram-se oportunidades de trabalho e renda e criam-se novas perspectivas para jovens que desejam permanecer em suas comunidades.

Ao contar sua própria trajetória, Flávia lembrou que começou acompanhando o trabalho desenvolvido por seus pais na coleta de sementes e que, ao longo dos anos, viu a atividade crescer, envolver novas famílias e despertar o interesse das novas gerações.

Hoje, o grupo reúne dezenas de coletores organizados em diferentes núcleos comunitários, contribuindo não apenas para o fornecimento de sementes utilizadas em projetos de restauração, mas também para a formação de uma rede de pessoas comprometidas com a conservação do Cerrado.

Durante sua apresentação, ela chamou atenção para outro aspecto fundamental desse processo: a necessidade de envolver a juventude.

Segundo ela, garantir a continuidade da restauração significa também assegurar que os conhecimentos tradicionais sobre o Cerrado sejam transmitidos às novas gerações, fortalecendo o sentimento de pertencimento e ampliando as oportunidades de atuação dos jovens em seus próprios territórios.

Essa visão foi compartilhada por outros participantes da mesa, que destacaram como as ações de restauração têm mobilizado moradores locais em diferentes etapas do processo, desde a coleta de sementes e produção de mudas até a implantação e o monitoramento das áreas restauradas.

Ao apresentar os resultados das iniciativas em andamento, os participantes ressaltaram que restaurar o Cerrado exige muito mais do que técnicas e equipamentos. Exige diálogo, participação social e o reconhecimento de que quem conhece profundamente o território também desempenha um papel essencial na sua recuperação.

Nesse contexto, projetos de restauração deixam de ser apenas intervenções ambientais e passam a representar oportunidades de fortalecimento comunitário, geração de renda e valorização dos saberes construídos ao longo de gerações, o que tem sido chamado de restauração inclusiva.

Ciência que protege o Cerrado

Se restaurar significa cuidar das pessoas, produzir conhecimento também é uma forma de proteger o território. 

Pesquisas sobre restauração ecológica, monitoramento da biodiversidade e conectividade da paisagem vêm ampliando a compreensão sobre o funcionamento dos ecossistemas do Cerrado e contribuindo para orientar ações de conservação cada vez mais efetivas.

Entre os destaques apresentados durante o encontro esteve o projeto Onde a Onça Bebe Água, coordenado pela Funatura com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a fauna do território e fortalecer estratégias de conservação em uma das regiões mais importantes para a biodiversidade do Cerrado.

Durante sua apresentação, Samantha Rincón, coordenadora do projeto Onde a Onça Bebe Água, explicou como o monitoramento da onça-pintada tem contribuído para identificar áreas prioritárias para a conectividade ecológica no Grande Sertão Veredas. Segundo ela, por ser uma espécie guarda-chuva, a conservação da onça beneficia toda a biodiversidade associada ao território e orienta estratégias voltadas à proteção de corredores ecológicos. 

Foto: Paulo Henrique

Os resultados apresentados durante a mesa demonstraram como o monitoramento da fauna, aliado ao uso de tecnologias e ao trabalho de campo desenvolvido por pesquisadores e comunidades, têm contribuído para ampliar o conhecimento sobre espécies ameaçadas e subsidiar estratégias de conservação em escala de paisagem.

Na Funatura, esse conhecimento também contribui para iniciativas voltadas à conservação dos recursos hídricos, reconhecendo a proteção de nascentes, veredas e demais áreas estratégicas como parte essencial da conservação da biodiversidade no Cerrado. Ao integrar informações sobre fauna, conectividade da paisagem e dinâmica ambiental, a instituição fortalece estratégias que promovem a proteção dos ecossistemas e a manutenção da disponibilidade de água no território.

Foto: Alen Guimarães

Mais do que produzir dados científicos, iniciativas como essa fortalecem uma visão integrada da conservação, em que a proteção da biodiversidade depende também da manutenção dos corredores ecológicos, da conservação dos recursos hídricos, da disponibilidade de água, da conectividade entre áreas naturais e do envolvimento das populações locais.

A presença da onça-pintada no território, nesse contexto, representa muito mais do que um indicador da riqueza biológica do Cerrado. Ela simboliza a necessidade de conservar paisagens inteiras, conectando unidades de conservação, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), propriedades rurais e comunidades que compartilham a responsabilidade pela proteção desse patrimônio natural.

Um legado que continua sendo construído

Depois de um dia marcado por histórias de cooperação, pesquisa, restauração e fortalecimento comunitário, o superintendente executivo da Funatura, Pedro Bruzzi, destacou que o encontro sintetiza a forma como a instituição compreende a conservação. 

Este encontro mostra que conservar a biodiversidade vai muito além da proteção de áreas naturais. É fortalecer pessoas, promover diálogo, construir confiança e trabalhar em parceria. Ver tantas instituições, comunidades e pesquisadores reunidos em torno de um propósito comum reafirma que esse é o caminho que a Funatura escolheu há 40 anos e continua percorrendo.”

Foto: Paulo Henrique

Ao longo do dia, diferentes experiências demonstraram que esse modelo de atuação permanece atual. Seja na restauração de veredas, no fortalecimento das cooperativas, na pesquisa científica, na proteção da fauna ou na criação de oportunidades para as novas gerações, todas as iniciativas apresentadas compartilhavam um mesmo princípio: conservar o Cerrado significa cuidar das pessoas e construir soluções de forma colaborativa.

Como quem entra numa vereda

Se o encontro começou celebrando uma trajetória de quatro décadas, terminou olhando para o futuro.

Coube à fundadora do Instituto Rosa e Sertão, Damiana Campos, encerrar o encontro com uma reflexão que sintetizou o espírito de todo o dia. 

Ao refletir sobre as transformações vividas pelo território, pelas organizações e pelo próprio Encontro dos Povos, Damiana lembrou que toda paisagem permanece viva justamente porque está em constante movimento.

A Funatura também mudou. Nós também mudamos. Os rios mudaram. A paisagem mudou. Mas o que permanece é a capacidade de aprender com essas transformações.”

Foto: Paulo Henrique

Em seguida, dirigiu-se ao público com um convite que sintetizou o espírito do encontro.

Eu queria dizer para vocês que entrem nessa festa como a gente entra numa vereda. Uma vereda povoada por gente. Ela se transforma, mas é uma transformação de manejo. O encontro com a Funatura foi uma possibilidade de manejar o Cerrado de outra forma.”

Ao concluir sua fala, Damiana recorreu a uma das imagens mais simbólicas do Cerrado para lembrar que conservar também exige equilíbrio.

Manejar a vida é aprender com o buriti. Se ele fica encharcado demais, morre. Se passa fogo demais, morre também.”

Foto: Paulo Henrique

Suas palavras encerraram o encontro retomando uma ideia presente desde a primeira mesa: conservar não significa impedir as transformações do território, mas aprender a conduzi-las com responsabilidade, respeito e participação.

Quatro décadas depois, a caminhada continua

Mais do que celebrar seus 40 anos, a Funatura aproveitou o encontro para reafirmar um compromisso construído ao longo de sua história: conectar natureza, pessoas e territórios por meio da conservação da biodiversidade.

Ao reunir diferentes gerações de parceiros, pesquisadores, comunidades tradicionais e instituições públicas, o evento mostrou que esse legado continua vivo e em constante construção.

Foto: Paulo Henrique

As histórias compartilhadas durante o dia demonstraram que a conservação do Grande Sertão Veredas não é resultado de uma única iniciativa, mas da soma de milhares de encontros, projetos, aprendizados e relações construídas ao longo do tempo.

Quatro décadas depois, talvez esse tenha sido o maior significado do encontro: perceber que a trajetória da Funatura já não pertence apenas à instituição. Ela passou a fazer parte da história de um território inteiro. Uma história que segue sendo construída todos os dias, conectando pessoas, natureza e territórios. 

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